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.:terça-feira, maio 25, 2004:.

Oi


Há um livro que eu positivamente venero; chama-se Terra e o autor é David Brin. Nunca me canso de reler este livro; cada vez que a humanidade parece ir de mal a pior, sempre me dá uma nova prespectiva, uma nova esperança.

O livro em si trata de tantos temas ao mesmo tempo, que é dificil imaginar como é que foi possível transformá-lo ainda numa história. Fala-se de história, ecologia, religião e cultos, o futuro espacial do planeta, a homeostasia do planeta, os sentimentos e esperanças das populações, a reciclagem, o efeito de estufa, buracos negros, e muito mais. Existe na colecção de livros de bolso Fc em 2 volumes e aconselho vivamente.

Aqui vão alguns extratos do livro, com os quais aprendi coisas sobre as quais nunca me tinha sequer debruçado:

Há muito tempo, antes mesmo de os animais terem aparecido em terra seca, as plantas desenvolveram um composto químico, a lignina, que lhes permitiu deixar crescer hastes compridas, podendo com elas suplantar em tamanho os seus mais directos competidores. Tratou-se de um daqueles factos que alteram as coisas para sempre.
Mas o que será que acontece quando uma árvore morre? Os seus componentes, proteínas, celulose e hidratos de carbono, podem ser reciclados, mas apenas se a lignina tiver sido tratada. Só então a floresta poderá reclamar a vitória sobre a morte.
Uma das soluções para este problema foi descoberto pelas formigas. Cem triliões de formigas, segregando ácido fórmico, ajudam a impedir uma catástrofe, pois, se assim não acontecesse, o mundo acabaria por sofucar, coberto por enormes quantidades de madeira incapaz de apodrecer. Claro que elas fazem isto unicamente para seu próprio bem, sem pensar nos benefícios que o facto traz ao Todo. E, contudo, o Todo é limpo, arrumado, renovado.
Será que este processo, a forma de as formigas terem arranjado maneira de salvar o mundo, foi encontrada por acaso?
Claro que sim, o mesmo se passando com todos os outros milagres acidentais que, no conjunto, constituem a maravilha a que chamamos mundo. Deixem-me que vos diga que alguns destes acidentes são mais fortes e sensatos que muitas acções planeadas. E se o facto de dizer isto me torna uma herética, então que assim o seja.


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Uma cordilheira de pequenas montanhas divide a cidade de Los Angeles. Durante os seus primeiros anos, enormes frotas de camiões precipitavam-se para os pequenos vales existentes entre essas encostas, carregados de toneladas de detritos urbanos.

Embalagens de café e grades de melão, caixas de cereais e expositores...

Nesses tempos de abundância, todos os bens pareciam ter de vir embrulhados em qualquer coisa. Por um ano, uma família normal paracia ter capacidade de produzir lixo suficiente para encher a casa onde vivia e também a garagem.

Jornais, revistas e folhetos publicitários...

Antes disso, durante a guerra contra a Alemanha e o Japão, Los Angeles dera a sua contribuição para o esforço de guerra através da reciclagem de diversos objectos. Assim, os cidadãos separavam os objectos de metal para os voltarem a empregar. O cartão era de novo enviado para as fábricas de pasta de papel. Até mesmo a gordura dos cozinhados era aproveitada. Os poucos que não sentiam qualquer prazer em ajudar eram obrigados a fazê-lo, caso contrário seriam multados.

Embalagens de leite e toalhas de papel... e produtos nunca usados, apenas com alguns defeitos pequenos e que as fábricas punham de parte...

Depois da guerra, as pessoas viram-se de súbito libertas de décadas de privação, despertando para uma era de abundância. Com o fim da crise, a reciclagem parecia ser algo obsoleto. Um qualquer candidato a governador chegou mesmo a prometer renovar aquela lei maçadora. Escusado será dizer que ganhou.

Sacos de amendoins, embalagens de comida rápida, caixas de pizzas prontas a ser consumidas...

As montanhas que dividem Los Angeles formaram-se ao mesmo tempo que a Placa do Pacífico e a Placa Norte-Americana. À medida que as duas enormes formações rochosas iam batendo uma de encontro à outra, uma cordilheira emergiu à superfície, tal como acontece com a pasta de dentes quando apertamos o tubo. As encostas de Santa Mónica e Hollywood eram apenas pequenas amostras do que o processo podia originar, mas acabaram por moldar a cidade que as acabou por rodear.

Caixas de produtos congelados, caixas de computadores e aparelhos de alta fidelidade, caixas de cartão vindas dos supermercados, caixas, caixas, caixas...

Houve um tempo em que entre as encostas existiam pequenos vales cobertos de carvalho e de feno, onde os veados pastavam e as aves de rapina planavam, constituindo o cenário ideal. Agora, os camiões não paravam de ir e vir, todos os dias. Ninguém reparou no facto até ao momento em que estes depósitos se viram completamente a abarrotar, o que aconteceu apenas no espaço de uma geração. Quando o século chegou ao fim, o que antes fora a extensão de terreno que separava dois cumes era agora uma planície ininterrupta, iluminada à noite por luzes que utilizavam gás de metano como combustível - sendo este formado no subsolo pelas enormes quantidades de lixo em decomposição.

Latas de cerveja e de refrigerantes, garrafas de molho de tomate... motores a gasolina, azulejos e mobílias velhas...

Seguiram-se então tempos difíceis. As novas gerações mostravam-se possuidoras de uma nova sensibilidade e de atitudes menos desleixadas. Voltaram a decretar-se multas e foram tomadas medidas para estancar o fluxo de desperdícios... primeiro para metade, depois para um décimo, depois para menos ainda.
Mas nada disto resolvia o problema levantado pela existência daqueles enormes planaltos entre as colinas. Planaltos de lixo?

Garrafas e sacos de plástico, colheres e garfos de plástico...

Alguns sugeriram a construção de edifícios, o que talvez fosse uma boa forma de lutar contra a falta de espaço. Claro que todos teriam de contar com algumas explosões ocasionais, e também com o desaparecimento esporádico de um ou outro prédio, atulhados no meio do lixo.

O animal de estimação envolto num saco de plástico... detritos dos hospitais... cimento e tijolos...

Outros sugeriram que estas lixeiras deveriam ser deixadas tal como estavam para que os futuros arqueólogos pudessem encontrar facilmente toda uma enorme riqueza de pormenores sobre a forma como a vida decorria na Califórnia do século XX. Tentando chegar ainda mais longe, os paleontólogos perderam-se em especulações a respeito de qual seria o aspecto daqueles depósitos dentro de alguns milhões de anos, depois de as placas continentais os terem transformado em finas camadas de rocha sedimentária.

Pneus e automóveis, rádios avariados e computadores obsoletos, dinheiro destinado a pagar a renda da casa e que acabara por desaparecer, anéis de diamantes colocados fora do sítio...

Era fácil de perceber o que acabaria por acontecer, mas foram poucos os que se deram conta do facto. À medida que a situação se agravava, os recursos se tornavam cada vez mais escassos e a destruição de detritos num acto compulsivo, era inevitável que todas aquelas planícies artificiais acabariam por chamar a atenção dos inovadores, ansiosos por arranjar maneira de enriquecer.

Ferro, alumínio, silicone... níquel, cobre, zinco... metano, amoníaco, fosfatos... prata, ouri, platina...

As pretensões foram registadas, os planos apresentados e analisados. Aperfeiçoaram-se novos métodos de aproveitamento. Acabou por se dar início às escavações entre as velhas colinas.
Lançando-se nos detritos de uma geração passada, os seus netos faziam os possíveis por descobrir o tesouro.

Começara a corrida ao lixo.


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Adasharta

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